A jovem Maíra sempre trouxe consigo um sorriso cativante. Conhecemos-nos em 1999, quando éramos jovens estudantes universitários, sonhadores e felizes com nossa linda juventude. Conversávamos e ríamos muito de muitas coisas que só a vida despretensiosa, de quem tem todo um futuro pela frente, pode desfrutar. Eu terminando minha graduação em letras e ela no início de sua caminhada acadêmica. A vida, como sempre, impõe seus rumos e cada um seguiu seu caminho. Nossa amizade foi abreviada pela necessidade de cada um tocar sua vida. Olhava para aquela menina e pensava que certamente iria muito longe. Então, não foi surpresa saber que, 14 anos depois, aquela menina hoje é uma pesquisadora, escritora e até lançaria um livro. Já fazia planos de adquirir um exemplar e por meio do meu amigo Léo Rosa de Andrade, pai de Maíra. No entanto, foi com pesar que tomei conhecimento do lamentável incidente envolvendo sua obra e um determinado cantor da jovem guarda.
O Brasil tem destas coisas. Existe ainda um provincianismo nas relações midiáticas que impõe o mundo imaginário em detrimento do mundo real. Com isso, concedemos títulos de rei e rainha, deus e deusa, imperador e por aí vai. E, infelizmente, os intitulados agem como tais. Consideram-se acima de tudo e de todos. Valem-se de leis ridículas, aliadas ao prestígio de seus “títulos” e da força do dinheiro para impedir a liberdade de expressão, e no caso em questão, até a pesquisa acadêmica. Não é a primeira vez que num ataque de arrogância e egocentrismo, atitudes autoritárias buscam cercear a abordagem, mesmo que criteriosa, da importância de certas figuras endeusadas para a construção da história cultural do nosso país. O que deveria ser algo a ser estimulado e apoiado pelas celebridades, vira assunto de justiça, como se a vida de tais pessoas fosse intocável. A tentativa de censurar a obra de Maíra é um ataque à democracia, à produção acadêmica e ao livre exercício das manifestações culturais.
Certa vez, viajando a Belo Horizonte, tive a grata surpresa de sentar ao lado de Fernanda Takai, vocalista da banda Pato Fu. Foi uma experiência inenarrável. A simplicidade e desprendimento da moça me deixaram encantado. Em nenhum momento, precisei dizer a ela o quanto admirava seu trabalho, o fato de ter todos os CDs lançados pela banda e até o maravilhoso álbum em tributo a Nara Leão. Estava diante de uma pessoa real, que faz um trabalho tão relevante quanto o meu ou de qualquer um. Conversamos sobre nossas vidas. Essas conversas normais que mantemos com aqueles que dividem conosco o curto tempo das viagens aéreas. A fama não havia subido à cabeça da artista e da minha parte considerava e ainda a considero uma pessoa interessante como tantas outras que conheci nas minhas andanças pelo mundo. Espero que a obra de Maíra não seja tão violentada, pois é uma contribuição relevante para entendermos a importância daquele momento histórico da nossa cultura.

